quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Valter

Trecho do conto: "O rapaz que habitava os livros". 

Fui ver a minha nova estante logo pela manhã.

Era um bocado de espaço arranjado entre tralhas meio esquecidas. Fiquei ofendido. Os livros não esquecem nada. Eles são para sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devam importar, porque podem esperar eternamente.

Alguém colocara uma pequena placa dizendo: não alimente os animais. Fiquei sem saber se queriam dizer que os livros eram bichos comendo as nossas ideias ou se seria eu um devorador de páginas, alimentado de palavras como as histórias. As histórias podem comer muitas palavras.

Pensei: os meus queridos livros. Era o que pensava e sentia: os meus queridos livros. Olhava-os como se estivessem vivos e pudessem sofrer. Como se pudessem também entristecer.

Gostei de colocar a hipótese de os livros serem como bichos. Isso faz deles o que sempre suspeitei: os livros são objectos cardíacos. Pulsam, mudam, têm intenções, prestam atenção. Lidos profundamente, eles são incrivelmente vivos. Escolhem leitores e entregam mais a uns do que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência.



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

9 anos

Continuamos por aqui. Às vezes com mais frequência, às vezes com menos. Mas seguimos. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Veríssimo

Do livro: "Veríssimas: Frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo".

APRENDIZADO
O que eu sei foi a vida que me ensinou e, como eu não prestava atenção e faltava muito, aprendi pouco. Sei o essencial, que é amarrar sapatos, algumas tabuadas e como distinguir um bom Beaujolais pelo rótulo. E tenho certo jeito - como comprova este exemplo - para usar frases entre travessões, o que me garante o sustento. No caso de alguma dúvida maior, recorro ao bom senso. Que sempre me responde da mesma maneira: "Olha na enciclopédia, pô". 

REPERCUSSÃO
Um escritor só é responsável pelo seu texto até o ponto final. O mundo que o texto vai encontrar depois do ponto final - o mundo dos leitores, dos críticos, do comércio e das repercussões - escapa ao seu controle. 


terça-feira, 18 de julho de 2017

Lições - Mia Couto

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda
hei de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Hilda Hilst



Dos "Primeiros Poemas", 1950.

XVII

Todos irão sempre contra ti
porque tens pureza.

Porque o agitado de tuas mãos
é quase nostálgico.

Porque teus olhos
ficarão abertos
para quem os viu
uma única vez.

Todos irão sempre contra ti
porque hás de querer
um munto novo e diferente.
Porque és estranho
e diferente para o nosso mundo.

És quase um louco
porque não dás atenção
a toda gente.

Dirão que és poeta.
Porque a poesia aparece nos teus gestos
como aparece fé na oração de um crente.
Amaste quase todas as mulheres.
Mas o amor agora é tão difícil.

Não existes para mim.
Mas agitado, febril,
quase doente, é vivo...

Vivo demais para viver conosco.

sábado, 15 de abril de 2017

Sempre Whitman

Long, Long Hence

After a long, long course, hundreds of years, denials,
Accumulations, rous'd love and joy and thought,
Hopes, wishes, aspirations, ponderings, victories, myriads of readers,
Coating, compassing, covering - after ages' and ages' encrustrations,
Then only may these songs reach fruition.






E foram publicadas duas obras do poeta neste ano - descobertas maravilhosas. Mas a gente fica aqui, com medo de ler tudo de uma vez e nunca mais. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Se for pra chorar que seja de alegria





Livro lindo. Crônicas lindas.

Trecho final de: "No tempo em que geladeira era luxo, só os ricos possuíam".


Como imaginar naquela época que todos teriam geladeiras, não apenas os ricos? E que as geladeiras poderiam ter uma, duas ou três portas? Ter congelador para carne (sem precisar conservar as carnes dentro de banha em latas), peixe, o que fosse? Geladeiras com torneira na porta para água? Ou com um orifício para atirar pedrinhas de gelo dentro do nosso copo de uísque. Quem diz "aquele tempo é que era bom" é porque não está aproveitando o tempo de hoje.



Obs: Ignácio olha para Andréa. Sem mais.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Carta de Otto a Murilo

Rio de Janeiro, 16 de maio de 1949.

Murilo,

Não receie tanto. A vida é nada e não há viagens (sobretudo quando se trata de Rio-B.Horizonte). Quer dizer que você vem mesmo da Montanha para esta grande e anônima Chantagem. Mais um profeta que deixa a sua terra... Já não sei, hoje em dia, se convém vir ao Rio. Sinceramente, sou incapaz de opinar nesse caso. Ando muito contra o Rio (apesar de gostar da cidade, de certo modo, e de certas coisas) e contra a ideia em geral de partir, de sair. Tudo me parece covardia, que cometeremos com certa leviandade, buscando fugir, em última análise, do grande, do espantoso fantasma que nos morde os calcanhares: nós mesmos.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Salve Rainha

A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
- já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
"Post-partum, Virgo Inviolata pemansisti.
Dei Genitrix intercede pro nobis."
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Os favoritos de 2016

No começo de 2016 eu coloquei para mim mesma uma meta (sabendo que iria cumprir) de 8 livros por mês. Livros do doutorado, livros infantis, tudo vale. Tudo é aprendizado. Tudo eu amo. 

Anotei e vi que cheguei ao 114. Viva a minha loucura. 

E aqui estão os meus favoritos do ano (para as 3 pessoas que se interessarem). 

Obs. 1: não há nenhuma categoria tipo "ficção" ou "não-ficção" e nem ordem - vou por ordem cronológica de leitura mesmo. Estou tão empolgada que coloco para vocês (mesmas 3 pessoas) o link de amazon/livraria cultura/afins.

Obs. 2: os livros não são necessariamente de 2016, mas só lidos no ano. 

1) Contos de cães e maus lobos - Valter Hugo Mãe
2) Como curar um fanático - Amós Oz
3) All who go do not return - Shulem Deen
4) The selected poetry of Yehuda Amichai
5) Shiva - A. B. Yehoshua
6) A delicadeza - David Foenkinos
7) Tirza - Arnon Grunberg
8) Flesh and Blood - Michael Cunningham
9) Flying Couch - a graphic memoir - Amy Kurzweil